
Chove.
E desejo que eu consiga escorrer por entre as pedras da rua e vá embora com toda a água. E chegue até rios. Até mares. Até fossas abissais nunca vistas por mais ninguém.
Que a chuva me lave os pecados, os medos, as angústias.
Que a chuva leve embora a neblina que me embaça a vista.
Que a chuva faça o que não fiz a vida inteira: chorar.
.
Fico querendo que tudo se torne tão líquido, que tudo se torne tudo e nada mais delimite nada.
E fico sentada, vendo a água da chuva escorrer pela janela. Quase escorro com ela, mas fico.
Meus medos são sólidos.
.
Mas subitamente me dou conta que eu comecei a chuva e que eu posso terminá-la.
E me dou conta que ao olhar para fora, não vejo nada.
E me dou conta que ao olhar para o vidro, embaçado e molhado, eu me vejo.
E ao me ver… começo a me enxergar…
E vejo, e enxergo, o que posso, o que irei, o que vou fazer.
E já não vejo mais chuva, neblina ou sombras.
Vejo a mim e sou eu que levanto da poltrona, abro a porta e me deleito na chuva.
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E como em um círculo perfeito que se tornou espiral, olho em volta e sorrio.
É só do que preciso para estar em outra vida e em outro mundo, olhar para mim.
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