Maria Thereza do Amaral

Não vá.

In Geral on 7 de junho de 2009 at 1:41

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Não vá.

Da última vez que você se foi, fiquei séculos sem vê-la.

Doeu.

Dói.

Pedaços meus ficaram flutuando num vórtex louco e insistiam em não voltar para mim.

Partes minhas eram líquidas, quase lágrimas, e não adquiriam mais consistência alguma.

Eu não sabia mais o que falava, o que sentia.

Eu não era mais eu.

Eu era algo montado para funcionar, e funcionava, mas nunca mais fui algo que trespaçasse a dimensão das obviedades.

A dimensão que eu circulava era ‘chapada’, sem relevo, sem perspectivas, sem texturas.

Era como uma face rígida, sem expressão.

Não vá.

Ou volte.

Volte e me faça recuperar todas as vidas que fiquei sem você.

Faça com que tudo que eu perdi, eu principalmente, retorne ao lugar.

Não vou jogar a responsabilidade da minha vida vazia em você.

Mas eu não tenho como não ter uma vida vazia sem você.

Não lembro mais do seu rosto.

Não lembro mais de como você era, de como você se movimentava.

Não lembro mais de como eu era antes de você não estar mais ao meu lado.

Não lembro mais de uma vida me sentindo inteiro.

Não me lembro mais de como é respirar sem fazer força.

Mas eu tenho a sensação que houve um tempo em que eu sentava numa sacada para olhar o sol e o que eu via era muito mais do que eu vejo agora.

Algo paira em minha volta, algo que me faz sentir falta de uma mão que se juntava a minha, para andar em volta de alguma coisa, só por andar, só para ter sua mão junto a minha.

Sensações perpassam pela minha alma amortecida que me fazem recordar, sem lembrar, de um rosto próximo ao meu passando sensações que não sei explicar, mas que me faziam sentir vivo.

Às vezes me pego esticando a mão para tocar algo que não sei o que é. E meu olhar se perde no nada até eu voltar ao agora. Vazio.

Às vezes, dormindo, acordo com minha mão percorrendo um corpo que não está lá.

Deixe-me achar você.

Pare com sua viagem e me espere.

Entre numa dimensão em que eu possa achá-la.

De um tempo para cá, vejo portas a minha volta em todos os lugares que vou.

Não tive coragem de abri-las. E se você não estiver lá?

Por isso peço: pare. Me espere.

Já cumpri tudo que tinha a cumprir, não preciso mais ficar sem você.

Não mais.

Então, decreto: hoje vou abrir a primeira porta que aparecer para mim.

E você vai estar lá.

E desta vez eu vou com você para onde você for.

Céu, inferno, purgatório, não importa.

Eu vou abrir a porta…

.

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